segunda-feira, 1 de maio de 2017

O surgimento dos Moura no Alto Sertão da Bahia

É indiscutível a importância e influência política dos Moura no sertão da Bahia, sobretudo entre Rio de Contas e Livramento de Nossa Senhora, no século XIX, seja nos episódios regionais da Independência do Brasil e da Bahia, seja na famosa guerra dos Moura versus Canguçú, décadas depois. 

Um marco importante, é a chegada à região na segunda metade do século dezoito, do Sr. Martiniano José de Moura Magalhães, vindo das Minas Gerais, o que não é estranho visto que a Estrada Real, cujos vestígios ou trechos são percorridos séculos depois, era uma ligação viária essencial sudeste-nordeste do Brasil.

Na Bahia,  Martiniano casa-se com Maria Efigênia da Rocha Albuquerque, filha de Bernardo de Matos e Albuquerque  e Lizarda Liberata da Vitória Rocha Medrado, "mulher de grande prestígio e opulência" e que o casal teria gerado cinco filhos: Maria Efigênia, Francisco José, José Messias, Ana e Lizarda (1). 

Bernardo teria adquirido do seu tio, Salvador Barbosa Leal, as terras entre os rios Brumado e São João, pertencentes ao "termo" de Jacobina, patrimônio esse que resultou em herança muito significativa para Maria Efigênia.

Martiniano e Maria Efigênia deixaram uma prole pequena para o padrão da época. Foram quatro filhos: José Honório, nascido em 1795, Martiniano (1796), Maria Carlota (1798) e Manuel Justiniano (1801). Como ocorria com muita frequência, numa época de precária assistência médica, Maria Efigênia não sobreviveu ao parto, deixando os filhos ainda pequenos, contando o mais velho com apenas seis anos (2).

Martiniano José viveu até 1817, quando assumiu os interesses da família o primogênito, José Honório, então com 22 anos. Na Fazenda São Gonçalo plantava-se algodão, cultivava-se mandioca e criava-se gado vacum. 

Os Moura e Albuquerque possuíam duas propriedades rurais: um sítio em Vila Velha, onde residiam, e a Fazenda São Gonçalo. Historiadores relatam ainda que, em 1821, é realizada a compra da Fazenda Umbuzeiros por José Honório ao Morgado da Casa da Ponte.


A provável  ausência de chuvas, que se prolongava desde 1818 na região, é apontada como antecedentes relevantes nas disputas políticas em Rio de Contas ocorridas entre 1822-23, fazendo com que José Honório e seus familiares passassem por dificuldades financeiras, e fossem motivados a lutar por posições de comando na vila e na política. (Ver referência de Moisés Frutuoso, abaixo referido, em nota)

Mas em outubro de 1822, José Honório de Moura e Albuquerque é assassinado nas ruas de Rio de Contas após uma decisiva reunião da Câmara de Vereadores, que envolvia o posicionamento entre os grupos denominados "brasileiros" e "portugueses" em torno da Independência na Bahia, tendo ele se posicionado pela Independência.

Há registros de que a Dona Maria Carlota de Moura e Albuquerque e irmãos tiveram presença importante nas ações que visaram a apuração do assassinato do irmão José Honório.

Outro irmão, Manoel Justiniano de Moura e Albuquerque, teve significativa participação nas ações ocorridas em Rio de Contas dez anos depois. Manoel Justiniano, que naquele momento ocupava interinamente a presidência da Câmara rio-contense, foi preso sob a acusação de favorecer agressões e assassinatos de seus inimigos políticos, em episódios, ainda pouco estudados.

Na década de 1840, Martiniano, o filho, e Manoel Justiniano de Moura e Albuquerque participaram de um conflito com outras duas famílias sertanejas: os Castros e os Canguçús resultando em muitas mortes, inclusive, do próprio Martiniano de Moura e Albuquerque, em fins de 1845 ou início de 1846. Registros de familiares indicam que Manoel Justiniano de Moura e Albuquerque teria falecido em 1881.

José Egídio de Moura e Albuquerque, Barão de Santo Antônio da Barra; Joaquim Augusto de Moura e Albuquerque, Barão de Vila Velha; Marcolino Moura e Albuquerque, Deputado Constituinte em 1891, netos de Martiniano José de Moura, são alguns dos representantes da geração seguinte dos Moura e Albuquerque.(3)


(1) CAMPOS DE SOUZA, Luiza. CONFLITO DE FAMÍLIA E BANDITISMO RURAL NA PRIMEIRA METADE DO SÉCULO XIX: CANGUÇÚS E “PEITOS-LARGOS” CONTRA CASTROS E MOURAS NOS SERTÕES DA BAHIA. Dissertação apresentada ao Programa de Pós Graduação em História, Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Federal da Bahia, como requisito parcial para a obtenção do grau de Mestre em História. 2014.


(2) FRUTUOSO, Moisés Amado. “MORRAM MAROTOS!”: ANTILUSITANISMO, PROJETOS E IDENTIDADES POLÍTICAS EM RIO DE CONTAS (1822-1823). Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em História, da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, da Universidade Federal da Bahia, como requisito para a obtenção do grau de Mestre em História. Pag. 55. 2015.

(3) Todos os estudos tem como referência a importante obra de Risério Leite, "Famílias sertanejas: os Mouras". In: Revista do Instituto Histórico da Bahia. Ano 8, n. 8. Salvador: Tipografia Manu, 1953. 

domingo, 16 de abril de 2017

Um patriarca dos Vasconcellos Bittencourt

De todas as andanças e buscas sobre a origem dos Vasconcellos Bittencourt no Alto Sertão da Bahia, na região onde hoje estão os municípios de Livramento e Rio de Contas,  constitui o relato mais frequente a versão de que três irmãos chegados dos Açores - José, Manoel e Francisco, teriam desposado três irmãs descendentes de um açoriano chamado Thimóteo de Souza Spínola.

Poucos registros documentais nos chegaram às mãos, seja sobre a saída dos Açores ou a chegada primeira à Bahia daqueles Vasconcellos Bittencourt. Todavia, há famílias que construíram sua árvore genealógica, por exemplo, a partir de achados sobre Francisco de Vasconcellos Bittencourt, casado com Maria Delfina de Souza Spínola, filha do velho Thimóteo Spínola.

Há muitas suposições, mas enquanto as certezas não chegam, podemos traçar algumas linhas provisórias. É o caso de Manoel de Vasconcellos Bittencourt, que teria sido um dos primeiros irmãos que aqui casaram com as Souza Spínola, no caso a Sra. Anna Delfina. Com ela, Manoel teve um filho chamado Francisco, nascido em 1809. Este registro é identificado em função do retorno de Manoel aos Açores, e de lá à Bahia novamente, desta vez acompanhado de nova esposa e filhos. permitindo a interpretação de que a primeira esposa morrera.

No registro dos Emigrantes dos Açores, do ano de 1833, fica anotado que Manoel tinha 42 anos, sua esposa Ana Teodora, 36, o filho do primeiro casamento, Francisco, 24 anos, e mais dois filhos novos, Manoel, com 9 anos e José, com 7 anos.

Manoel, o pai, teria nascido em 1791, e o primeiro filho, Francisco, em 1809, quando o pai contava com dezoito anos. Manoel, o filho, nascera em 1824, e o mais novo, José, nascera em 1826.

É o mais novo dos filhos de Manoel e Ana Teodora que merece nossa particular atenção. Trata-se mais de uma hipótese que deverá ser testada e contestada, até que a verdade se manifeste.

Um episódio ocorrido, no ano de 1862, relativo a uma missão militar que envolveu dois tenentes-coronéis - Joaquim Augusto de Moura e José de Vasconcellos Bittencourt, servirá para balizarmos as respectivas idades. Joaquim Augusto, o futuro Barão de Vila Velha, nascido em 1828, recebe a patente de tenente-coronel, em 1861, aos 33 anos. O referido episódio, ocorrido um anos após, 1862, encontrará José de Vasconcellos Bittencourt, com a mesma patente, aos 36 anos de idade.

Significa que, poderia sim, o José, chegado em 1833, ser aquele mesmo que ocupara o posto de tenente-coronel.  Sendo, pois, o mesmo José, estaria com 61 anos, em 1887, ano da morte do Tenente-Coronel José de Vasconcellos Bittencourt.  O Barão de Vila Velha, só morreria onze anos depois, aos 70 anos de idade. Mas é razoável supor que foram da mesma geração, reforçando a hipótese aqui levantada. 

Este José, filho de Manoel e Ana Teodora, que teria se casado com Rodriga de Castro Meira. José e Rodriga seriam os pais de Rodrigo de Vasconcellos Bittencourt, bem como do Coronel José de Vasconcellos  Bittencourt Júnior, também conhecido como Coronel Cazuza, em Tambahu - SP, radicados no final dos anos 1800 na região da Mogiana, Casa Branca, São Paulo.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

Augusto de Vasconcellos Bittencourt

Augusto foi uma personagem que apareceu nas primeiras referências sobre a diáspora dos Vasconcellos Bittencourt, das Minas de Rio de Contas, na Bahia, para Casa Branca, em São Paulo. O seu nome figurava como um dos sócios, ao lado de José de Vasconcellos Bittencourt Júnior, da Fazenda Terra Vermelha. Lugar de moradia de Rodrigo, filhos e netos, sempre mencionado como local de nascimento destes últimos.

Augusto foi vereador em Casa Branca (1887-1890), foi também Agente do Correio, teve firmas em São Paulo e Rio de Janeiro, possivelmente para o comércio de café.

Casado com Dona Leonilla de Vasconcellos Magalhães, também oriunda da Bahia, Augusto faleceu em 29 de maio de 1914, em Casa Branca. Deixaram dois filhos homens, Agripino e Augusto Júnior (1). Duas filhas são mencionadas, Adalgisa, casada com Francisco Inácio da Silva (em 1868), e Amelia casada com Gabriel dos Santos Figueiredo.

As referências à fazenda que possuía em sociedade com José, e um artigo de um jornal de Tambahu, fizeram crer que  fosse irmão do Coronel Cazuza (José de V. Bittencourt) e de Rodrigo. Contudo, uma nota publicada na edição de 17 de maio de 1909, do jornal O Estado de São Paulo, aponta em outra direção. Diz a nota, ter falecido em Casa Branca a "veneranda Senhora D. Anna Amélia de Moura Bittencourt, mãe do Sr. Capitão Augusto de Vasconcellos Bittencourt".

A Dona Anna seria a filha de Martiniano de Moura e Albuquerque(2) e D. Francisca Joaquina. Dona Anna Amélia era casada com o Major Francisco de Vasconcellos Bittencourt, o que explica o uso do sobrenome, repetido por gerações. Francisco, por sua vez, é provável tio de Rodrigo e José (Coronel Cazuza), irmão mais velho do tenente coronel José de Vasconcelos Bittencourt.


(1) Aggripino casou-se com Margarida Rodrigues, com proclamas publicadas em abril de 1917. Ele empregado público, ela engomadeira, viúva. À época já eram falecidos Augusto e Leonila. 
(2) Martiniano foi morto, em abril de 1846, por Leolino Canguçu e homens a seu serviço, em meio ao episódio conhecido como Guerra dos Moura. Martiniano era pai de Joaquim Augusto Moura, posteriormente agraciado com o título de Barão de Villa Velha.

sábado, 10 de setembro de 2016

Moura assassinado na luta pela Independência do Brasil

Os Moura tiveram uma importância indiscutível ao longo do século XIX no alto sertão da Bahia, especialmente em Rio de Contas. Este relato trata do crime que vitimou José Honório de Moura e Albuquerque, nascido em 1795, filho de Martiniano José de Moura Magalhães e Maria Efigênia da Rocha e Albuquerque. 

Os acontecimentos que levaram à morte de José Honório estão relacionados à disputa entre portugueses e brasileiros durante e após a declaração da Independência do Brasil, especialmente anos 1822 e 1823. Por sua importância, este período continua a ser tema de pesquisa de historiadores que estudam temas relacionados à Independência da Bahia.     

Apesar de situar-se num rincão há mais de mil quilômetros dos acontecimentos que se desenrolavam na capital do Império, Rio de Contas fervilhava, mergulhada na disputa política que decidiria o destino do Brasil. Afinal, as terras brasileiras continuariam submetidas ao jugo português ou se tornariam independentes, por mais vínculos que continuassem a existir entre as duas monarquias? Ao mesmo tempo, estavam em jogo a ocupação de cargos públicos e poder político, base para garantir influência econômica e paramilitar.

Em fins de 1822, instala-se na Vila de Rio de Contas uma Junta Provisória de orientação política mais conservadora, resistindo manifestar adesão ao novo regime imperial. Em Salvador, permaneciam tropas portuguesas sob o comando de Madeira de Melo. Logo a Junta foi associada aos “europeus” em contraposição aos "brasileiros" que defendiam um claro posicionamento de apoio ao Conselho Interino instalado em Cachoeira. 

Na Câmara de Rio de Contas José Honório fez um forte pronunciamento declarando que a Junta deveria “[...] sujeitar-se ao governo de Cachoeira para onde se mandaria os dinheiros públicos e adjutórios que se pudesse dar”, reforçando o movimento que meses depois culminaria no 2 de julho de 1823.

O próprio Governo de Cachoeira pediu ao Ministro do Império José Bonifácio de Andrada e Silva para que intercedesse junto à D. Pedro para “chamar à ordem as vilas de Rio de Contas e Caetité" uma vez que não se dobravam à autoridade daquele Conselho.

Em 1º de novembro de 1822, em meio à enorme tensão política e militar, a Câmara riocontense decide realizar a aclamação de D. Pedro I como Imperador Constitucional do Brasil, jurando fidelidade à “Causa do Brasil” e obediência ao governo instalado provisoriamente em Cachoeira. 

A Câmara foi cercada por diversos grupos armados, e José Honório foi jurado de morte caso comparecesse à reunião. Seu irmão, Antônio Martiniano, após enfático discurso que proferiu na sessão, também foi ameaçado. Em meio aos acontecimentos José Honório resolve ir à Câmara, chegando por volta das sete horas, quando a sessão já havia terminado. Ao caminhar pelas ruas da cidade foi alvejado com um tiro que lhe atingiu as costas, de modo fulminante.

O assassinato acirrou a disputa política, e as escaramuças entre os denominados "brasileiros" e "portugueses" multiplicaram-se.

Antônio Martiniano de Moura e Albuquerque enviou um pedido ao General Labatut para que fossem tomadas providências, iniciando "uma devassa" sobre o caso, identificando e punindo os responsáveis. Há registro de que os três irmãos - Manuel Justiniano, Antônio Martiniano e Maria Carlota, acusaram na Justiça o Sargento Antônio Rocha de Bastos e outros pelo acontecido. Outras fontes apontaram o Coronel Antônio Ribeiro Magalhães como mandante do assassinato. Contudo, não há registros de que tenha havido acusação formal pelo assassinato, e os culpados nunca foram punidos.

Ao contrário, o tensionamento político levou à prisão de brasileiros, com intervenção do Conselho Interino. 

Muitos anos mais tarde, em abril de 1846, o assassinato de Antônio Martiniano abalaria a família mais uma vez. A motivação, no entanto, já não se relacionava com a disputa política de 1822, e sim à uma guerra entre famílias em episódio contado em verso de cordel e que mereceu destaque até mesmo em romance de Jorge Amado.

Referências:

AMADO FRUTUOSO, Moisés. A IMPRENSA E A CONSTITUIÇÃO DA JUNTA TEMPORÁRIA DE GOVERNO DE MINAS DO RIO DE CONTAS (1822-1823). In: XXVII Simpósio nacional de História. Natal, 22 a 26 de julho de 2013.
AMADO FRUTUOSO, Moisés. “MORRAM MAROTOS!”: ANTILUSITANISMO, PROJETOS E IDENTIDADES POLÍTICAS EM RIO DE CONTAS (1822-1823). Dissertação de Mestrado em História - UFBA, 2015
CAMPOS DE SOUZA, Luiza. CONFLITO DE FAMÍLIA E BANDITISMO RURAL NA PRIMEIRA METADE DO SÉCULO XIX: CANGUÇÚS E “PEITOS-LARGOS” CONTRA CASTROS E MOURAS NOS SERTÕES DA BAHIA. Dissertação de Mestrado em História - UFBA, 2014.

sábado, 27 de agosto de 2016

Priscas eras


Na Serra do Espinhaço, antes de chegar à Chapada Diamantina, no alto sertão da Bahia, nasceu a cidade de Caetité. Destacou-se muito tempo como importante centro educacional e cultural. Jovens de toda a região para ali se deslocavam para frequentar a Escola Normal, ou a Escola do Padre Palmeira.

Talvez por isso, famílias tradicionais desenvolveram estilo próprio no uso da língua portuguesa. Estilo só visto em priscas eras, quase um idioma próprio, em função da inacessibilidade da gente comum à compreensão do que se falava nas casas daquela elite local.

Questionados sobre a sofisticação do linguajar, respondiam impávidos: "cada símio na ramificação arbórea que lhe compete", demarcando o campo. A empregada, coitada, ficou atônita quando lhe ordenaram: "tome um elemento cortante, vá ao pântano cercante, e deixe o suíno inerte". Saiu correndo, apavorada, antes que se lhe acometesse algum mal.

Não gostavam, contudo, de muita conversa e, enfadonhos com o falar simplório do povo do lugar, diziam impacientes: "interlóquio para acalentar bovinos nos braços de Morfeu".

Em geral, a frase não surtia qualquer efeito, senão espanto ou desconcerto.

Foi de Caetité, no entanto, que saiu um dos grandes educadores do Brasil - Anísio Teixeira, que defendeu um amplo movimento pela alfabetização e estímulo à educação popular e de tempo integral.

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

O Barão de Villa Velha


Joaquim Augusto de Moura nasceu em Rio de Contas, Bahia, no ano de 1828, vindo a falecer a 21 de maio de 1898, na cidade do Rio de Janeiro. Filho de Martiniano Moura e Albuquerque e Francisca Joaquina de Carvalho Vasconcellos, de tradicionais famílias do alto sertão baiano, teve duas irmãs, Ana Amélia de Moura Vasconcellos, casada com o Major Francisco de Vasconcellos Bittencourt, e Maria Florinda de Moura Albuquerque, casada com Faustino Fogaça de Souza.

A "Casa do Barão", na localidade de Lagoa do Timóteo, a 56 quilômetros da sede do município de Livramento de Nossa Senhora, é tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico da Bahia - IPAC. Construída originalmente como Casa dos Coqueiros, no século dezoito, teve a sua ala direita construída em meados do século XIX, provavelmente por Joaquim Augusto de Moura. Reforça esta tese a informação e que neste período teria passado a residir na região, onde já morava a sua mãe(1).

Em novembro de 1861, o Capitão Joaquim Augusto foi promovido a Tenente-Coronel, Comandante do 57o. Batalhão de Infantaria da Guarda Nacional do Município de Minas do Rio de Contas, sendo reformado no posto de Coronel, dezoito anos mais tarde, em fevereiro de 1879.

Nesse meio tempo, um fato relevante é registrado. Em 1863, o Tenente-Coronel Joaquim Augusto de Moura recebe uma suspensão das suas atividades na Guarda Nacional por alegadas razões de descumprimento de ordens do Presidente da Província da Bahia, Antonio Coelho de Sá Albuquerque, por ocorrência militar registrada no ano anterior em desdobramento a um recrutamento de cidadãos riocontenses. Contudo, suspeitas foram levantadas quanto às razões de natureza político-eleitoral, que seriam as reais motivações para a punição(2).

Em maio de 1873, o Imperador D.Pedro II concede a Joaquim Augusto o título de Barão de Villa Velha, em retribuição a vultosa doação de 10 contos de réis que fizera para a "instrução pública" de Rio de Contas. Vila Velha é uma referência à sede do atual município de Livramento de Nossa Senhora, na Bahia, na borda da Chapada Diamantina, fazendo divisa com o município de Rio de Contas. Posteriormente, foram registradas várias doações feitas pelo Barão, seja para o esforço da Guerra do Paraguai, ou para instituições de caridade, principalmente no período em que passou a morar no Rio de Janeiro.

Seu deslocamento para o sul do país é apontado por estudiosos da história regional da Bahia, sendo, no entanto, residual o registro de sua passagem por São Paulo e deslocamento para o Rio de Janeiro.

A partir de 1881 são encontradas inúmeras referencias à sua presença no Rio de Janeiro em jornais da época, seja por seu papel na administração da Santa Casa de Misericórdia(1881 a 1888) ou como membro do Conselho Fiscal do Banco do Brasil(1886 a 1890), membro da Ordem Terceira de São Francisco de Paula, ou sorteado para integrar Juri. Também são anotados registros do seu deslocamento anual para Petrópolis no período de novembro a fevereiro, quando o verão era mais intenso. Até mesmo um roubo que foi vítima quando se hospedava em um hotel do Rio, em 1882, mereceu registro nos jornais.

Em 1881, recebe a Comenda da Real Ordem Militar Portuguesa de Nossa Senhora da Conceição da Vila Viçosa. Três anos depois, foi nomeado para a Ordem da Rosa, alta condecoração do Império.

Em 1898, após longo período de enfermidade, morre aos 70 anos em sua casa, à Rua Senador Vergueiro, no Rio. Seu corpo foi sepultado em jazigo bem ornamentado no Cemitério do Catumbi. Entre os presentes, seu primo, ex-deputado Marcolino de Moura Albuquerque, e seu sobrinho Leonel Rocha.

A 7 de julho de 1922, faleceu, também no Rio de Janeiro, a Baronesa Carlota Joaquina de Matos, esposa de toda a vida, nascida em Rio de Contas. Não deixou descendência(3).
_________________

(1) Mozart Tanajura, em "História de Livramento. a Terra e o Homem". 430 páginas. Ed. Secretaria da Cultura e Turismo - Bahia. Salvador, 2003.
(2)  Informações complementares em textos publicados em vasconcelosbahia.blogspot.com
(3) As informações aqui detalhadas, foram obtidas em jornais, em especial das décadas de 80 e 90 do século XIX, entre os quais o Diário do Commércio, Diário de Notícias, Gazeta de Notícias, Diário do Brazil, O Paiz,entre outros.

quarta-feira, 13 de julho de 2016

Recrutamento


Este texto é sobre um longínquo ancestral dos Vasconcelos de Brumado. Trata-se do bisavô do meu avô Osório. Chamava-se José e era o pai de Rodrigo, que era pai de Faustino, este pai de Osório que foi pai de uma vasta prole. Não se sabe ao certo quando nasceu, e não  parece ter sido um dos dos três Vasconcellos Bittencourt - José, Manuel e Francisco, chegados dos Açores. O mais provável é que tenha sido filho de algum daqueles desbravadores.

No ano de 1862, ainda se ouvia ecos da Guerra do Prata acontecida dez anos antes, e cresciam as disputas territoriais que se seguiram e que estão entre as causas da Guerra do Paraguai.

Na falta de um contingente militar que atendesse às exigências do enfrentamento entre as nações do sul do continente, o recrutamento se intensificava na população civil. Foram milhares e milhares de cada Província, ano após ano. A Bahia estava entre as que mais contribuições fazia: escravos, jovens nascidos fora do casamento, delinquentes e, à medida que as forças armadas precisavam mais reforços, voluntários, praças da Guarda Nacional e população a mais empobrecida.

Naquele ano, em Rio de Contas, a polícia fez mais um desses recrutamentos, prendendo populares que preenchiam os critérios já citados, especialmente jovens. Como um grande número de efetivos da tropa regular havia sido aquartelado na cidade da Bahia, o governo da Província determinou que a Guarda Nacional conduzisse os recrutas até Salvador

A ordem foi direcionada a dois comandantes da Guarda Nacional - o Tenente Coronel Joaquim Augusto de Moura e o Tenente Coronel José de Vasconcelos Bittencourt, comandantes do 57º e 59º batalhões, respectivamente. Caberia a eles indicar destacamentos daquela força civil, com características paramilitares, para escoltar os recrutas até a Capital.

Reagindo à ordem superior, os tenentes coronéis não cumpriram a determinação, ficando os recrutas encarcerados durante sete meses nas prisões públicas da região. Na verdade, muitos recrutados eram, comumente, praças da Guarda Nacional. A patente de tenente-coronel era usualmente destinada a lideranças políticas locais, de famílias de muitas posses e influência, o que explica a disposição de descumprir uma ordem direta.

Em represália o Presidente da província, Antonio Coelho de Sá Albuquerque, em janeiro de 1863, determinou a suspensão dos dois comandantes e mais o tenente-coronel Manoel Alves de Castro Coelho, do exercício das suas funções sob acusação de negligência, fato que destacou no seu Relatório à Assembleia Provincial. Na falta de justificativa mais convincente apontou que o descumprimento se deu por "capricho" dos oficiais.

O assunto foi motivo de grande repercussão nos jornais diários da Bahia, Pernambuco e Rio de Janeiro. Houve quem elogiasse a conduta rigorosa do Presidente da Província da Bahia, mas também teve espaço quem visse nos acontecimentos uma manobra política para beneficiar opositores dos tenentes-coronéis nas eleições que ocorreriam brevemente. Um certo Sr. Espínola, a ser melhor decifrado, seria, senão um dos mentores, eventual interessado na punição aos Tenentes-Coronéis. A soltura dos recrutas encarcerados e a suspensão de novos recrutamentos até que se dispusesse de força para conduzi-los de imediato, foram medidas apontadas como parte da manobra política. Afinal, alegava-se, havia ou não contingente para a escolta? Se havia por que não foram utilizados? 


A despeito daquele acontecimento político, o povo continuou a sofrer com recrutamentos e alistamentos coercitivos por muito tempo.


Um daqueles personagens, Joaquim Augusto de Moura, se tornaria mais tarde o Barão de Vila Velha. Quanto ao tenente-coronel José de Vasconcellos Bittencourt, continuou tendo vida social e política ativa, falecendo em 1887.

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